Em 1977, um ano antes da Copa do Mundo que foi sediada na Argentina, fui enviado a Buenos Ayres para mostrar antecipadamente aos torcedores brasileiros que para lá se deslocariam, o ambiente que os aguardava num pais governado desde o ano anterior com mão de ferro por um ditador militar. Minha primeira missão era entrevistar o pianista, maestro e compositor Osvaldo Pugliese, um dos últimos remanescentes dedicados ao tango tradicional. Tarefa difícil, não apenas por sua agenda superlotada como, também, por barreiras impostas por seus subalternos. Soube que ele estaria à frente de sua orquestra abrilhantando um baile promovido por um clube da periferia de Buenos Ayres e para lá me locomovi numa noite de sábado. Estava gravando o show quando uma das tais patrulhas do governo ditatorial argentino invadiu o ambiente e a orquestra imediatamente cessou a apresentação e os casais que dançavam, sob a mira de muitas armas, encostaram nas paredes do salão. Com meu volumoso gravador Uher pendurado no ombro, fui dos primeiros a ser visto e abordado e não foram nada confortáveis os 15 ou 20 minutos que tive de conviver com aqueles tipos. Porém, esse é um capítulo que não cabe neste espaço, portanto, vou me ater à entrevista que consegui com o maestro Osvaldo Pugliese ao final do show, quando a patrulha já tinha se retirado. Soube, então, que ele havia sido preso em várias ocasiões, uma delas em 1955 quando ficou detido por vários meses, tudo como consequência de sua ideologia política, comunista confesso e, para agravar, um líder sindical que impulsionou a criação do Sindicato Argentino de Músicos em 1935 defendendo a música como um trabalho digno.
Indo a Buenos Ayres não deixe de visitar o enorme e belíssimo monumento em homenagem ao maestro Osvaldo Pugliese e seus músicos. Fica na rua Luis Maria Drago esquina com a Corrientes e Scalabrini Ortiz, no bairro de Villa Crespo.






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